É uma área da ciência, multidisciplinar, que estuda o sistema de trabalho, simples ou complexo, propondo o melhor relacionamento entre o trabalho e a visão. O objetivo principal é a prevenção e administração de desconforto e doenças oculares em relação ao trabalho, visando máxima eficácia com máxima eficiência da função visual.
Os trabalhos científicos sobre erg0oftalmologia vêm sendo desenvolvidos pelo Comitê de Trabalho e Visão do International Concillium of Occupational Health. O grupo trabalha na pesquisa da caracterização da atividade laborativa e do ambiente de trabalho, na definição de um “nível de ação” que, quando superado, mereça intervenção. Na periodicidade da vigilância epidemiológica, a pesquisa atual está concentrada nos seguintes critérios de aptidão:
- Alteração de refração
- Alteração da mobilidade ocular
- Alteração da visão periférica (perimetria)
- Alteração do senso cromático
- Alteração da adaptação (cegueira noturna)
- Alteração dos anexos e superfície ocular
- Patologias concomitantes
- Astenopia ocupacional
Para o oftalmologista, esta área da ciência traz um maior entendimento sobre queixas de nossos pacientes que não apresentavam correlação clínica, mas que tinham sua etiologia no ambiente de trabalho.
A importância de uma anamnese bem feita traz informações importantes para o diagnóstico etiológico. Mas o conhecimento da influência das condições de trabalho em relação aos olhos esclarece sintomatologias até então não consideradas, por não apresentarem alterações patológicas que as justifiquem ao exame oftalmológico.
Alguns aspectos estudados pela ergoftlamologia são de grande relevância e muitas vezes não observados. O telecontrole dos processos industriais, o uso constante de terminais de vídeo, a maior solicitação dos órgãos da visão durante o processo laboral são fatores determinantes de astenopia ocupacional, por exemplo.
O quadro de astenopia ocupacional caracteriza-se por distúrbios oculares e/ou irritativos ou funcionais, apresentados quando o aparelho visual tenta se superar através de mecanismos estressantes, excedendo sua própria capacidade fisiológica.
Ela é caracterizada por sintomas multiformes (superfície ocular, refração, motilidade ocular; não específica, polifatorial de desenvolvimento precoce ou tardio). Entre os sintomas oculares encontram-se ardência, lacrimejamento, “gritty feeling”, algia periorbital e/o retrobulbar e hiperemia conjuntival. Já os visuais incluem sensações de “deslumbramento” à luz, visão ofuscada, diplopia e cansaço visual durante a leitura.
As condições de iluminação de interiores, natural ou artificial, desenvolvem una relação essencial no desenvolvimento da astenopia ocupacional. Sua importância se deve a progressiva mudança do trabalho “manual” para o “conceitual”, dos “colarinhos azuis“ para os “colarinhos brancos”, do trabalho da fábrica ou campo para o escritório.
A Síndrome do Edifício Doente ocorre por atividade de intenso empenho visual de perto, que se desenvolve freqüentemente em ambientes confinados, onde os ocupantes manifestam sensações de mal-estar – sintomas não-específicos e principalmente sensorial. Estudos demonstram a presença de elevado número de manifestações subjetivas e objetivas oculares nestes ambientes, conhecidas como Eye Office Syndrome.
Luz azul
Por ainda não ser de conhecimento da população, a radiação por luz azul é outro tema dentro da ergoftalmologia que merece especial atenção.
Uma das causas da degeneração macular, a luz azul está presente no espectro luminoso dentro de uma faixa de 380 a 520 nm, atingindo seu potencial máximo entre 441/442 nm. A exposição a ela causa lesões nas células melanocíticas do epitélio pigmentar da retina, dependendo do tempo de exposição e intensidade. À intensidade de 60/90 J/cm2, o dano pode ser irreversível.
A prevalência da degeneração macular senil (DMS) é menor que 2% até os 55 anos, entre 10% e 12% entre 55 e 65 anos e maior que 30% acima de 75 anos. A incidência, entretanto, está aumentando. Estudos revelam que ela triplicará nos próximos 25 anos, levando-se em conta uma vida média de 75 anos – um dado preocupante, se considerada a atuação desse agente potencializador.
A luz azul está presente principalmente nas lâmpadas de halogênio metálicos, cujo uso tem sido muito difundido devido à maior durabilidade e baixo custo. Por isso, começam a ser utilizadas indiscriminadamente em grandes ambientes, tanto de trabalho como de lazer, expondo pessoas que não tem consciência dos riscos envolvidos.
A ergo0ftalmologia vem se firmando em nosso meio, unindo especialidades como a oftalmologia e a medicina do trabalho, abrindo novos horizontes, novas oportunidades e novos conceitos.
Fonte: Artigo publicado pela Sociedade Brasileira de Lentes de Contato, Córnea e Refretometria - SOBLEC
